terça-feira, 13 de novembro de 2007

Evangélicos, homofobia e bom senso - alguns apontamentos

A suposta audiência, tratada como seminário e que ao final acabou se convertendo em um culto, proposta por um grupo de pastores evangélicos para discutir a lei que criminaliza a homofobia, mais vez surpreende pela falta de sensatez e bom senso. O encontro aconteceu na Primeira Igreja Batista de Campo Grande, ontem (12).

A discussão com tom de pregação, sem espaço para o contraditório, não causaria incômodo se ficasse restrita ao terreno religioso, onde fé e crença se misturam ao discurso vazio de instituições religiosas que disputam presença e poder político. E para sustentar esse discurso religioso, a estratégia como era de se esperar, foi também construir por meio de falácias a bricolagem discursiva.

Sem liga nem contexto, busca-se argumentos para compor um mosaico estruturalmente frágil, mas superficialmente significativo, perfeito para aqueles que esperam confirmar comodamente o que acham. Um serf-service de equívocos que depois vão ajudar a compor percepções sobre algo que preciso condenar por uma simples questão de princípios. A mesma bitolagem que empreende um esforço enorme de legitimar o consenso, apropriando-se de maneira inoportuna do dissenso alheio.

E vale tudo para defender posições e marcar terreno, até omitir informações (para não dizer mentiras e reafirmar a idéia da verdade como bem absoluto).

Em tópicos, as falácias e estratégias dos evangélicos para tratar do projeto que criminaliza a homofobia e das demais leis que, segundo eles, "querem instituir a ditadura gay na sociedade brasileira". Vai lá...

- Não há lei maior do que a lei da igreja. Não há constituição mais perfeita que a constituição divina, expressa na Bíblia e responsável por reafirmar a cidadania celestial.

- A lei dos homens é boa só porque mostra os pecados e as falhas da criatura humana. E aponta por isso para a dependência de DEUS.

- A LEI de DEUS é clara e justa - aos homossexuais que pereçam longe de DEUS no inferno.

- Para justificar a imoralidade e os riscos da homossexualidade, o discurso médico (naturalista) e jurídico (funcionalista) e o político (demagógico) são suficientes. Basta o médico dizer que a prática homossexual coloca em risco a espécie humana por impedir a reprodução da espécie, o advogado afirmar que proibir a discriminação e violência homofóbica é insconstitucional por ferir os valores pétreos da constituição, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, apenas no quesito liberdade religiosa. E por fim alguns políticos confundirem pluralismo, democracia e laicidade. E quando o púlpito vira palanque, pedirem aos céus que os diferentes ali presentes se levantem para ouvirem em alto e bom tom que são amados. Espetáculo, política e religião em uma mistura explosiva.

- Vale confrontar e abusar das hegemonias. Epistemologicamente as ciências biológicas em confronto com as humanas e sociais. A antropologia e a sociologia perdem importância para a medicina e o juridiquês funcional. Mas calma, esses são úteis até não confrontarem os preceitos da família e da moralidade.

- O direito como algo estanque, utilitário e vazio. As leis justificam os meios quando os fins estão legitimados moralmente.

- A moralidade se nutrindo da imoralidade e não da ética. A fé se sustentando exclusivamente da crença endógena, fechada em si mesma.

- O racionalismo coméstico: se nos últimos 25 anos 800 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, e se 14% da população é homossexual, então, as mais de 2500 mortes por ano anunciadas pelo movimento homossexual não passam de uma contagem sem sentido. Conclusão do departamento de estatística evangélico.

- A questão está restrita a revolta contra os benfeitores. Lembra do assassinato dos europeus pelos jovens que eles ajudaram, que aconteceu no Rio de Janeiro. A história se repete. Os homossexuais estão impedindo que seus benfeitores lhes façam o bem.

- A tese para combater a violência homofóbica é simples: para não serem vítimas e não terem seus direitos violados, que os homossexuais saiam dos lugares violentos. Simples.

- O pano de fundo não é religioso, é legal: como diz a constituição o governo não deve criar embaraços para a prática religiosa. Em nome dela vale até mesmo ferir a constituição. Só para não dizer que sou um ignorante pétreo, vale lembrar que a liberdade religiosa e de expressão é apenas um dos direitos garantidos. Para eles era o único. Convenções Internacionais e Tratados sobre Direitos Humanos, Sexuais e Reprodutivos, Discriminação, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, alguns nos quais o Brasil é signatário, são distantes da realidade imediata.


Façam um exercício agora. Construam suas teses a partir dos pressupostos escolhidos para justificar a ofensiva contra a criminalização da homofobia. Identifiquem as falácias, mostrem onde os discursos se contradizem, aponte para as lacunas do pensamento dedutivo e cartesiano. Induzir e deduzir é um risco a ser corrido individualmente. Ainda há tempo!

Antonio Sardinha

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