terça-feira, 6 de novembro de 2007

ENONG - "Teoria dos três ciclos e das três crises" para entender o movimento ONG AIDS

A previsão inicial, feita logo no início do XIV Encontro Nacional de ONGs AIDS, foi confirmada. O movimento social de luta contra AIDS no Brasil está em crise de identidade. As observações de especialistas e militantes históricos têm como pano de fundo um cenário de incertezas e dúvidas que convergem para uma reflexão diria existencial da sociedade civil que atua contra a epidemia.

De todas as análises, destaco a do ativista Mario Scheffer, da ONG Pela VIDDA de São Paulo. O militante que acompanhou e participou ativamente do movimento de AIDS é crítico ao falar do passado, presente e do que se espera desse movimento que já demonstrou muita força e está entre as principais articulações que a sociedade civil conseguiu emplacar no Brasil.

Para Scheffer, o movimento de luta contra AIDS brasileiro pode ser dividido em três fases. A primeira foi a do ativismo de urgência, onde a preocupação era a denúncia e as demandas emergenciais que apareceram logo com o início da epidemia. Esse período vai até os anos de 1990, onde começa um segundo momento, o do ativismo de conquistas. A pressão política obriga o governo a dar respostas, fazendo surgir a política pública de enfrentamento à AIDS. A última fase compreende ao período atual, o de ativismo de manutenção. A preocupação é manter as conquistas e impedir retrocessos. A sensação aqui é de comodismo e exaustão, em que o ativismo acaba banalizado. O movimento acaba perdendo seu espaço político próprio.

O que levou a sociedade civil de luta contra AIDS chegar nesse ponto para Scheffer foi um conjunto de crises. A primeira, de identidade. Criou-se o mito de que o Brasil tem o melhor programa contra AIDS de todo o mundo. "E diante de mito não se faz política e ativismo", critica. Isso fez com que o movimento deixasse de ter vida própria e passasse a ser um componente da política do governo, que por sua vez acaba pautando as ações da sociedade civil. A atuação desse grupo torna-se burocrática e pontual. Às vezes, assume o papel de bombeiro, é chamada para apagar alguns incêndios.

A segunda crise que culminou na crise maior está na esfera individual. A disposição para ser ativista foi reduzida. Falta renovação dos quadros, identidade política com o movimento e uma demanda por ocupar espaços de controle social, fóruns, por capacitações que joga para segundo plano o ativismo de base.

A última crise é a relativa a financiamentos. A pergunta é como buscar outras fontes de recursos e fugir do atual modelo de financiamento, dependente quase que exclusivamente do governo. Para piorar, o financiamento é limitado e inadequado a proposta de ação da sociedade civil. São dois espaços diferentes, com tempos diferentes de fazer a política pública acontecer. Dessa “simbiose” entre governo e sociedade civil, surge a clássica polêmica que acomete muitas ONGs AIDS: são prestadoras de serviços ou assumem o papel de monitorar, fiscalizar e propor políticas ao Estado, são das duas coisas ou nenhuma? Scheffer vai além e diz que a luta contra AIDS deixou de ser um fim e se tornou um meio para conquistas imediatas e pessoais.

"Nós nos formamos dentro das dores pelas perdas e da consciência dos direitos e da cidadania. Há resíduos do passado que precisam ser usados para pensar o futuro", reflete o ativista.

A teoria arquitetada em meio a uma exposição curta de pouco mais de 20 minutos é a matriz para uma conversa mais longa e complexa sobre o que esperar do movimento de AIDS. O que mais preocupa é que estamos avançando pouco nessa direção.

Antonio Sardinha

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