terça-feira, 13 de novembro de 2007
Evangélicos, homofobia e bom senso - alguns apontamentos
A discussão com tom de pregação, sem espaço para o contraditório, não causaria incômodo se ficasse restrita ao terreno religioso, onde fé e crença se misturam ao discurso vazio de instituições religiosas que disputam presença e poder político. E para sustentar esse discurso religioso, a estratégia como era de se esperar, foi também construir por meio de falácias a bricolagem discursiva.
Sem liga nem contexto, busca-se argumentos para compor um mosaico estruturalmente frágil, mas superficialmente significativo, perfeito para aqueles que esperam confirmar comodamente o que acham. Um serf-service de equívocos que depois vão ajudar a compor percepções sobre algo que preciso condenar por uma simples questão de princípios. A mesma bitolagem que empreende um esforço enorme de legitimar o consenso, apropriando-se de maneira inoportuna do dissenso alheio.
E vale tudo para defender posições e marcar terreno, até omitir informações (para não dizer mentiras e reafirmar a idéia da verdade como bem absoluto).
Em tópicos, as falácias e estratégias dos evangélicos para tratar do projeto que criminaliza a homofobia e das demais leis que, segundo eles, "querem instituir a ditadura gay na sociedade brasileira". Vai lá...
- Não há lei maior do que a lei da igreja. Não há constituição mais perfeita que a constituição divina, expressa na Bíblia e responsável por reafirmar a cidadania celestial.
- A lei dos homens é boa só porque mostra os pecados e as falhas da criatura humana. E aponta por isso para a dependência de DEUS.
- A LEI de DEUS é clara e justa - aos homossexuais que pereçam longe de DEUS no inferno.
- Para justificar a imoralidade e os riscos da homossexualidade, o discurso médico (naturalista) e jurídico (funcionalista) e o político (demagógico) são suficientes. Basta o médico dizer que a prática homossexual coloca em risco a espécie humana por impedir a reprodução da espécie, o advogado afirmar que proibir a discriminação e violência homofóbica é insconstitucional por ferir os valores pétreos da constituição, da Declaração Universal dos Direitos Humanos, apenas no quesito liberdade religiosa. E por fim alguns políticos confundirem pluralismo, democracia e laicidade. E quando o púlpito vira palanque, pedirem aos céus que os diferentes ali presentes se levantem para ouvirem em alto e bom tom que são amados. Espetáculo, política e religião em uma mistura explosiva.
- Vale confrontar e abusar das hegemonias. Epistemologicamente as ciências biológicas em confronto com as humanas e sociais. A antropologia e a sociologia perdem importância para a medicina e o juridiquês funcional. Mas calma, esses são úteis até não confrontarem os preceitos da família e da moralidade.
- O direito como algo estanque, utilitário e vazio. As leis justificam os meios quando os fins estão legitimados moralmente.
- A moralidade se nutrindo da imoralidade e não da ética. A fé se sustentando exclusivamente da crença endógena, fechada em si mesma.
- O racionalismo coméstico: se nos últimos 25 anos 800 mil pessoas foram assassinadas no Brasil, e se 14% da população é homossexual, então, as mais de 2500 mortes por ano anunciadas pelo movimento homossexual não passam de uma contagem sem sentido. Conclusão do departamento de estatística evangélico.
- A questão está restrita a revolta contra os benfeitores. Lembra do assassinato dos europeus pelos jovens que eles ajudaram, que aconteceu no Rio de Janeiro. A história se repete. Os homossexuais estão impedindo que seus benfeitores lhes façam o bem.
- A tese para combater a violência homofóbica é simples: para não serem vítimas e não terem seus direitos violados, que os homossexuais saiam dos lugares violentos. Simples.
- O pano de fundo não é religioso, é legal: como diz a constituição o governo não deve criar embaraços para a prática religiosa. Em nome dela vale até mesmo ferir a constituição. Só para não dizer que sou um ignorante pétreo, vale lembrar que a liberdade religiosa e de expressão é apenas um dos direitos garantidos. Para eles era o único. Convenções Internacionais e Tratados sobre Direitos Humanos, Sexuais e Reprodutivos, Discriminação, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas, alguns nos quais o Brasil é signatário, são distantes da realidade imediata.
Façam um exercício agora. Construam suas teses a partir dos pressupostos escolhidos para justificar a ofensiva contra a criminalização da homofobia. Identifiquem as falácias, mostrem onde os discursos se contradizem, aponte para as lacunas do pensamento dedutivo e cartesiano. Induzir e deduzir é um risco a ser corrido individualmente. Ainda há tempo!
Antonio Sardinha
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
ENONG - “Do caos a ordem – uma auto-avaliação do movimento de AIDS brasileiro”
Nosso movimento depara-se com uma crise, a qual não é sinônima de destruição. Dialogar sobre esse momento nos faz perceber que é desorganizando que podemos nos organizar e que nos deparamos com problemas e limites que devem ser levados em consideração para esse novo momento histórico: de construção do Movimento Social de Luta Contra a Aids.
Vivemos uma crise de identidade afetada pela centralização, disputa e hierarquização do poder, o que junto com a falta de comunicação desencadeou um processo de sobreposições das agendas individualistas, atreladas muitas vezes a recursos e demandas governamentais, que acarretaram a perda do foco de trabalhos de base comunitária. Talvez o modelo vigente de movimento Aids e de ENONG não digam mais o que desejamos e sonhamos, “se esgotou no seu formato por não possibilitar tempo para reflexão”, auto-crítica e avaliação; o modelo de execução dos nossos encontros tornou-se elitista e com propostas repetitivas, o que dificultou o exercício da autonomia e do ativismo.
A discussão quanto à mudança do nome “Enong” suscita a discussão quanto às mudanças e desafios postos ao movimento Aids. Entendemos que o Encontro Nacional deve primar pela participação de outros movimentos sociais para mobilização no enfrentamento da epidemia da Aids, contemplando dessa forma outros atores sociais. É preciso fomentar o trabalho em rede, envolvendo os diferentes movimentos sociais que discutem a questão das DST/Aids, Hepatite, TB.
A institucionalização ou não de redes sociais que formam os movimentos sociais não deve ser critério de participação dos mesmos nos Fóruns, Articulações e nos seus Encontros Nacionais ou Regionais.
Esse momento de construção política possui desafios e possibilidades que são: o controle social também para o Movimento Social de Luta Contra a Aids; renovação do ativismo; fortalecimento dos espaços de formação política; reconhecer as diversidades que compõem o próprio movimento; e que qualquer que seja o governo, o movimento precisa continuar com suas reivindicações próprias.
O Movimento Nacional de Luta contra a Aids, entende que o fortalecimento do SUS se processa através da participação em diversas instâncias de Controle Social, assim consolidando o Sistema Único de Saúde.
Para nós é muito claro que o SUS é o resultado da mobilização da Sociedade Civil Organizada e, consideramos que é função de todos avaliar, monitorar e contribuir para a elaboração de Políticas Públicas. Sendo assim, é preciso aprofundar a reflexão sobre que modelo de Estado nós queremos. É o Estado mínimo? Estado de Bem Estar Social? Estado como inimigo ou parceiro?O Governo ajuda ou prejudica?
Por exemplo, sabemos o tamanho da influência do Banco Mundial (que é uma Instituição Financeira Multilateral, que faz parte das instituições do ajuste estrutural) na implementação das Políticas Públicas de Saúde, em particular nas políticas de controle da Aids. Se por um lado, possibilitou implantar ações, por outro, trouxe as condicionalidades de um modelo de Estado mínimo. Nesse sentido a Saúde é vista como um bem de consumo. E é estratégico a simbiose entre Estado e Sociedade Civil.
Defendemos o Estado de Bem Estar Social e repudiamos o Neoliberalismo.
O Movimento Nacional de Luta Contra a Aids conclama maior resolutividade e resposta contra essa epidemia, quer rediscutir o marco ético do Movimento. Afirma que é necessário o fortalecimento do ativismo, através dos espaços de construção coletiva do movimento (composto de redes sociais, Fóruns, Articulações Estaduais) e está disposto a refletir sobre a crise do movimento e trilhar o caminho de fortalecimento da identidade de ser Movimento Social.
Para isso é preciso humanizar, acolher, e exercitar a solidariedade e altruísmo nas relações no Movimento (entre nós). Ter um olhar coletivo, próprio de movimento social, a partir de uma visão pluralista e fortalecer o ativismo crítico, autônomo, independente, genuinamente comunitário, diante das parcerias, respeitando os princípios éticos do movimento, não vendendo a alma.
Nesse momento histórico desejamos novos rumos...
· Autonomia na construção de uma agenda política do Movimento Social de Luta Contra a AIDS;
· Retomar os trabalhos de base;
· Rever os espaços de participação;
· Rever o nosso vínculo enquanto movimento social e possibilitar espaços de comunicação para conhecer as diversas faces desse movimento;
· Garantir o monitoramento e a transparência na execução das ações do movimento;
· Que a configuração dos nossos encontros perpasse por metodologia centrada numa construção de grupo (dinâmico, lúdico, criativa e simples);
· Criar espaços de formação política nos fóruns e articulações.
· Rever os critérios de representação das redes sociais junto a estes colegiados – Encontros regionais e nacionais;
· Desenvolver estratégias de fortalecimento dos Fóruns, dos Encontros Regionais e Nacional. Que tenha um documento que assegure a participação/representação dos outros movimentos sociais nesses espaços.
· É importante reconstruir a Articulação Nacional/Aids e os Encontros Regionais e Nacional do Movimento.
· Atuação política em âmbito local para proposições e encaminhamentos para estes espaços colegiados.
· Ter maior conhecimento do contexto socioeconômico e político da conjuntura tanto nacional, bem como a internacional no que se refere a Aids;
· Fomentar e ampliar as articulações políticas local, regional, nacional, internacional.
· Devemos criar mecanismos para melhor trabalhar nas Conferências, Seminários, Congressos, Fóruns e Encontros que formam, informam e articulam o Movimento.
domingo, 11 de novembro de 2007
Apreensão de armas demonstra que situação de índígenas em Antonio João é ameaçadora
(..) Para que não continuemos sendo surpreendidos e com notícias de brutalidade e toda espécie de violências contra essa comunidade Kaiowá Guarani serão necessárias várias ações dos órgãos públicos, e o julgamento da ação que paralisou a conclusão do processo de regularização desta terra indígena."
Operação da PF apreende armas em fazendas da fronteira
Campo Grande News, 08 de Novembro
Policiais federais cumpriram mandados de busca e apreensão em fazendas em Antônio João, a 300 km de Campo Grande, na fronteira com o Paraguai. Duas pessoas, funcionários de fazendas, teriam sido presas por manterem armas sem registro. Pelo menos seis armas e uma motosserra foram apreendidas nas fazendas. As buscas também foram realizadas nas casas dos índios. Nada foi apreendido. O local é uma zona de litígio entre fazendeiros e índios guarani kaiowa, que reivindicam a criação de uma reserva de 9.300 hectares, já reconhecida pela União. O mandado foi expedido pela juíza Lisa Taubenblatt, da Justiça Federal de Ponta Porã. A Polícia Federal realizou prisões e teria apreendido armas nas fazendas. A PF de Ponta Porã ainda não divulgou a identidade dos presos nem a relação do que foi apreendido. A operação foi desencadeada por volta das 6h de hoje e envolveu cerca de 30 policiais federais. O capataz da fazenda Fronteira, que pertence ao ex-prefeito de Antônio João, Dácio Queiroz, está entre os presos.
Antonio Sardinha
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
Professoras homossexuais vão à justiça contra Prefeitura de Campo Grande
Campo Grande - Duas professoras homossexuais da rede municipal de ensino de Campo Grande (MS) decidiram ir à Justiça para pedir R$ 500 mil de indenização - R$ 250 mil para cada - por terem sido proibidas pela prefeitura de continuar dando aulas. A punição ocorreu em abril, depois que o caso foi encaminhado ao prefeito Nelson Trad Filho (PMDB) pela secretária de Educação, Maria Cecília da Mota. Ele considerou o romance um "mau exemplo" para os alunos e um "comportamento inadequado com a função que exerciam".
Uma das professoras, de 39 anos, foi demitida; a outra, de 52, foi afastada e seu cargo, colocado à disposição da Secretaria de Educação. Ela contou que procurou a prefeitura para poder voltar ao trabalho, mas a resposta foi a de que não havia vaga. A funcionária pública disse que, em 20 anos de carreira, "nunca havia passado por situação tão constrangedora". "Contei sobre meu relacionamento para outra professora e foi a partir disso que tudo chegou a esse ponto. A minha companheira trabalhou em diversos órgãos públicos, sem nunca ter tido problemas."
O prefeito reconheceu que a decisão foi radical, mas disse que "o caso tomou o caminho que deveria tomar". "As atitudes são em cima do estatuto do servidor. Se você tivesse um filho de cinco anos estudando lá, pensaria o quê?"
As professores tentavam resolver o caso sem apelação judicial desde a época do afastamento. Em setembro, prestaram queixa na Polícia Civil e, com base no boletim de ocorrência, denunciaram o caso à Comissão de Direitos Humanos da OAB em Mato Grosso do Sul e ao Ministério Público do Trabalho.
Para o advogado de ambas, José Belga Assis Trad, "o homossexual não é cidadão de segunda categoria". Ele garantiu que nesta semana vai entrar com a ação contra o município.
A escola onde as duas trabalhavam fica na zona rural de Campo Grande, onde elas moravam num alojamento com os demais professores. No local, os comentários sobre o relacionamento delas eram constantes. José Trad afirmou que "um professor, quando soube que elas eram homossexuais, afastou-se do grupo e separou objetos pessoais, como garfo e faca".
quinta-feira, 8 de novembro de 2007
Deputados rejeitam projeto que legaliza a prostituição
Seguem as opiniões prós e contra o projeto.
O que pensa o relator ACM Neto
"O projeto iria reforçar a indústria da prostituição, e quem iria ganhar dinheiro seriam os grandes empresários, de quem as mulheres ficariam reféns". Magalhães Neto argumenta que a liberdade para contratar não é ilimitada, deve respeitar a ordem pública e o interesse social e, a prostituição, portanto, não poderia gerar contrato.MoralidadeA proposta rejeitada também suprime do Código Penal os artigos 228 (favorecer a prostituição), 229 (manter casa de prostituição) e 231 (promover, intermediar ou facilitar a entrada, no território nacional, de pessoa que venha exercer a prostituição ou a saída de pessoa para exercê-la no exterior).Quanto ao artigo 228, o relator considera que sua supressão, "além de implicar uma violação da moralidade pública sexual", facilitaria o constrangimento das vítimas. Já a eliminação do artigo 231, conforme Magalhães Neto, contraria atos internacionais de que o Brasil é signatário, como a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças.
Paulo Maluf (PP-SP)
Considera a legalização da prostituição "uma degradação moral, que não ajuda em nada o desenvolvimento econômico e social do Brasil".
Marcelo Itagiba (PMDB-RJ)
"Vergonha maior não é se prostituir, mas sim mas sim pagar uma pessoa para se relacionar com ela e depois discriminá-la como de segunda categoria".
Fernado Gabeira (PV-RJ)
Afirma que a prostituição é um trabalho informal que precisa ser atraído para a Previdência Social. Gabeira também argumenta que o projeto ajudará no combate à prostituição infantil e juvenil.
Gabriela Leite - Rede Brasileira de Prostitutas
"Hoje, se a gente denunciar que tem uma criança em uma casa de prostituição, corre o risco de no dia seguinte acordar na vala comum. Porque os donos de bordel não devem obrigação a ninguém, só devem o dinheiro da corrupção policial que eles pagam para as casas deles funcionarem."
Antonio Sardinha
Com informações da Agência Câmara
quarta-feira, 7 de novembro de 2007
ENONG - "Região Sudeste sedia XV Encontro Nacional em 2009"
ENONG - "Encontro chega fim com votação de relatório final"
terça-feira, 6 de novembro de 2007
ENONG - "E aí, como é que a gente acorda essa gente?"
Dona Sonia Regina da Silva, 54 anos, carioca, negra, uma década de ativismo e integrate da Amamu - Associação de Mulheres e Amigos do Morro do Urubu, zona norte do Rio de Janeiro - lê o que escreveu antes de dormir depois de ouvir um dia inteiro de debates e conversas sobre análise de conjuntura, avaliações das políticas públicas e da sociedade brasileira. Inspirada no filme Tropa de Elite, narrativa que conhece muito bem, faz sua avaliação do cenário político contemporâneo. Usa dos significados que o impacto do filme causou nos brasileiros para falar da realidade que vive no trabalho de prevenção à AIDS com mulheres na favela carioca.
Assim escreveu e leu: "De que temos medo? Virou lenda urbana ou é real? Quando será lançada um 'Tropa de Elite do SUS'? Fico pensando se esse filme também não alcançaria a sociedade, obrigando-a sair do comodismo e buscar e propor estratégias para sair dessa inércia".
Obrigado Dona Sonia, sua angústia agora é minha angústia também ! E vamos andando...
Antonio Sardinha
ENONG - "Teoria dos três ciclos e das três crises" para entender o movimento ONG AIDS
De todas as análises, destaco a do ativista Mario Scheffer, da ONG Pela VIDDA de São Paulo. O militante que acompanhou e participou ativamente do movimento de AIDS é crítico ao falar do passado, presente e do que se espera desse movimento que já demonstrou muita força e está entre as principais articulações que a sociedade civil conseguiu emplacar no Brasil.
Para Scheffer, o movimento de luta contra AIDS brasileiro pode ser dividido em três fases. A primeira foi a do ativismo de urgência, onde a preocupação era a denúncia e as demandas emergenciais que apareceram logo com o início da epidemia. Esse período vai até os anos de 1990, onde começa um segundo momento, o do ativismo de conquistas. A pressão política obriga o governo a dar respostas, fazendo surgir a política pública de enfrentamento à AIDS. A última fase compreende ao período atual, o de ativismo de manutenção. A preocupação é manter as conquistas e impedir retrocessos. A sensação aqui é de comodismo e exaustão, em que o ativismo acaba banalizado. O movimento acaba perdendo seu espaço político próprio.
O que levou a sociedade civil de luta contra AIDS chegar nesse ponto para Scheffer foi um conjunto de crises. A primeira, de identidade. Criou-se o mito de que o Brasil tem o melhor programa contra AIDS de todo o mundo. "E diante de mito não se faz política e ativismo", critica. Isso fez com que o movimento deixasse de ter vida própria e passasse a ser um componente da política do governo, que por sua vez acaba pautando as ações da sociedade civil. A atuação desse grupo torna-se burocrática e pontual. Às vezes, assume o papel de bombeiro, é chamada para apagar alguns incêndios.
A segunda crise que culminou na crise maior está na esfera individual. A disposição para ser ativista foi reduzida. Falta renovação dos quadros, identidade política com o movimento e uma demanda por ocupar espaços de controle social, fóruns, por capacitações que joga para segundo plano o ativismo de base.
A última crise é a relativa a financiamentos. A pergunta é como buscar outras fontes de recursos e fugir do atual modelo de financiamento, dependente quase que exclusivamente do governo. Para piorar, o financiamento é limitado e inadequado a proposta de ação da sociedade civil. São dois espaços diferentes, com tempos diferentes de fazer a política pública acontecer. Dessa “simbiose” entre governo e sociedade civil, surge a clássica polêmica que acomete muitas ONGs AIDS: são prestadoras de serviços ou assumem o papel de monitorar, fiscalizar e propor políticas ao Estado, são das duas coisas ou nenhuma? Scheffer vai além e diz que a luta contra AIDS deixou de ser um fim e se tornou um meio para conquistas imediatas e pessoais.
"Nós nos formamos dentro das dores pelas perdas e da consciência dos direitos e da cidadania. Há resíduos do passado que precisam ser usados para pensar o futuro", reflete o ativista.
A teoria arquitetada em meio a uma exposição curta de pouco mais de 20 minutos é a matriz para uma conversa mais longa e complexa sobre o que esperar do movimento de AIDS. O que mais preocupa é que estamos avançando pouco nessa direção.
Antonio Sardinha
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
Os indígenas na mira do Congresso
A última que um deputado federal de Mato Grosso, Homero Pereira (PR), acaba de inventar. Ele quer que a demarcação de territórios indígenas seja feita por meio de leis. Isso significa que caberá ao Congresso o poder de demarcar as terras dessas populações. Com o lobby das bancadas ruralistas e dos deputados financiados pelas multinacionais, desejosas pela terra e água brasileiras para investimentos no agronegócio, dá para imaginar o que o projeto de lei do parlamentar pode causar...
Antonio Sardinha
ENONG - "AIDS no cenário internacional: alguns apontamentos"
ENONG - "Ativistas serão formados para atuação internacional"
O Programa Nacional de DST/AIDS apresenta em primeira mão projeto para formação de 27 ativistas brasileiros e pessoas vivendo com AIDS para atuar na mobilização política internacional. A idéia é que o movimento de luta contra a epidemia ocupe os fóruns, comitês e outros espaços políticos internacionais para dialogar, trocar experiências e, principalmente, contribuir para a formulação de políticas em um contexto internacional. A previsão é que o curso comece em 2008, com duração mínima de um ano. O grupo seleto será selecionado obedecendo critérios específicos, um deles é a experiência na área e atuação na base do movimento de luta contra AIDS. O projeto de formação prevê investimento de R$ 150.000,00. Logo mais, seguem relatos do desafio colocados no cenário internacional na luta contra a epidemia.
Antonio Sardinha
domingo, 4 de novembro de 2007
Encontro de ONGs/AIDS começa discutindo rumos do movimento
O que dá para notar é que o tema a dar o tom do encontro será os rumos que a sociedade civil pretende se dar para enfrentar os novos desafios da epidemia. Em aparente crise, devido a equívocos cometidos dentro do movimento na organização do próprio ERONG, as cobranças que vêm do governo e da própria sociedade civil para permanência do diálogo qualificado que faz do movimento referência para outros países, além dos desafios colocados no cenário nacional e internacional para atuação da sociedade civil na luta contra a epidemia, tudo isso fez com que as as organizações se vissem em uma situação que parece decisiva ao que esperar do ativismo nessa área. As provocações começaram antes mesmo do debate ser oficialmente inaugurado, afinal, a questão já colocada é a discussão sobre a identidade do movimento. A pergunta que não calou: o que é ser ativista de um movimento de luta contra a epidemia da AIDS hoje? Outra: como cada organização tem cuidado desse patrimônio conquistado às custas de muita articulação e mobilização política? Aos ibissianos embrenhados em uma pesquisa que mapeia e estuda a constituição e relação das redes de direitos humanos com a pauta da AIDS, fica o desafio tb.
As discussões, como já disse, prometem e não demora muito para surgir a primeira contradição. Ao mesmo tempo que se avalia o movimento ONG/AIDS, a conversa sobre ativismo internacional que abriu o evento adiantou a pauta que algumas organizações, inclusive o IBISS, já estão atentas, a de ampliação do foco de sua atuação. A idéia é discutir a AIDS a partir de matrizes mais estruturais. Exemplo: a relação entre integração latino-americana como um novo contexto para tratar da epidemia. Sobre isso, retomo amanhã, como uma novidade interessante !
Abrçs
Antonio Sardinha
Indígenas denunciam abusos e ameaças em Antonio João (MS)
Indígenas do povo Guarani-Kaiowá denunciam abusos e intimidações
02 de novembro de 2007
Índios da etnia Guarani-Kaiowá, da terra Nhanderu Marangatu, denunciam abusos e intimidações por parte dos seguranças que cuidam da fazenda Fronteira, onde a aldeia fica localizada. A área fica a 6 quilômetros do município de Antonio João, em Mato Grosso do Sul. Para o professor da comunidade, Isaías Sanches Martins, a tensão na aldeia é permanente. Segundo ele, os seguranças da fazenda intimidam a população indígena com armas e já estupraram, este ano, três mulheres.
Brasília - Na última terça-feira (30), outro episódio assustou a comunidade: os seguranças dispararam vários tiros em direção a um grupo de crianças que estava brincando. “Felizmente, nenhuma delas foi atingida”, garantiu Martins.
Na última quarta-feira (31), a Polícia Federal apareceu na aldeia. Segundo Martins, os indígenas realizavam um ritual em homenagem aos mortos. A denúncia apurada pelos policiais era de que os índios estavam tentando invadir áreas da fazenda. “A comunidade se sentiu intimidada”, disse.
Para a integrante da Convenção dos Direitos indígenas de Mato Grosso do Sul, Leia Aquino, “a Polícia Federal não tem atendido aos chamados dos índios. Eles só aparecem na fazenda quando são chamados pelos donos da fazenda”.
Procurada pela Agência Brasil, a Polícia Federal afirmou que sempre vai à aldeia quando é chamada e que, da última vez que esteve no local, nenhuma irregularidade foi constatada.
Leia Aquino confirmou os estupros a mulheres da aldeia e acusou os seguranças da fazenda. Segundo ela, na semana passada mais um caso foi registrado, dessa vez, uma senhora, que buscava lenha nas proximidades da aldeia. O marido da vítima também foi agredido, e os dois foram levados ao hospital do município mais próximo.
“As intimidações e agressões vem acontecendo desde o dia 5 de outubro quando os seguranças armados começaram a disparar balas a cerca de 50 metros das casas dos indígenas”, disse Aquino.
“Homens e mulheres que saem para buscar lenha são agredidos e quando chamamos a Polícia Federal eles não aparecem”, alertou.
De acordo com o professor Martins, a comunidade já enviou um ofício para o Ministério Público Federal informando sobre a situação enfrentada no local, mas até agora não recebeu resposta e não houve providência.
A área ocupada pelos Guarani-Kaiowá foi demarcada em 2004 e homologada em março de 2005 pelo presidente da República, mas foi anulada no mesmo ano.
De acordo com Martins, os índios foram despejados na rodovia 384 no dia 15 de dezembro daquele ano, onde ficaram por sete meses. Dias depois o líder dos Guarani, Abravalino Rocha, foi morto no portão da Fazenda Fronteira.
A Agência Brasil entrou em contato com a Fundação Nacional do Índio (Funai), mas até o fechamento desta matéria, a entidade não se manifestou sobre o caso.
Camila Vassalo -Da Agência Brasil
Do portal Direitos.org