Entre especialistas e analistas competentes, vale ouvir de quem atua na base uma avaliação sobre a conjuntura do movimento ONG/AIDS, das políticas de saúde (uma preocupação central das pessoas que atuam nessa área") e da situação do país que vivemos.
Dona Sonia Regina da Silva, 54 anos, carioca, negra, uma década de ativismo e integrate da Amamu - Associação de Mulheres e Amigos do Morro do Urubu, zona norte do Rio de Janeiro - lê o que escreveu antes de dormir depois de ouvir um dia inteiro de debates e conversas sobre análise de conjuntura, avaliações das políticas públicas e da sociedade brasileira. Inspirada no filme Tropa de Elite, narrativa que conhece muito bem, faz sua avaliação do cenário político contemporâneo. Usa dos significados que o impacto do filme causou nos brasileiros para falar da realidade que vive no trabalho de prevenção à AIDS com mulheres na favela carioca.
Assim escreveu e leu: "De que temos medo? Virou lenda urbana ou é real? Quando será lançada um 'Tropa de Elite do SUS'? Fico pensando se esse filme também não alcançaria a sociedade, obrigando-a sair do comodismo e buscar e propor estratégias para sair dessa inércia".
Depois, em uma conversa particular comigo, no canto da sala, complementa: "O movimento social está quase afundando, porque as pessoas estão se afastando, não querem mais participar. E aí, como é que a gente acorda essa gente?".
Dona Sonia, fez-me pensar muito depois. Sentei e o que consegui foi ao invés de respostas continuar perguntando. Afinal:
-A crise no movimento de AIDS na verdade não é uma crise dos projetos e promessas que a modernidade não conseguiu cumprir? As relações nos movimentos sociais passam pela construção de que sujeitos políticos? Afinal, que sujeitos políticos somos nós? Temos uma identidade? Se sim, que identidade é essa que não considera subjetividades, individualidades e desejos particulares? Por que os movimentos sociais se tornaram espaço para troca de angústias e aflições e não mais de estratégias e projetos políticos? Mas isso é de fato um erro, apenas uma limitação momentânea ou pode ser um caminho para reestabelecer a luta e o componente políticos desses sujeitos que se inscrevem na história de seu tempo? Como inovar e incidir políticamente, mas de forma criativa, repolitizar sujeitos políticos? Mas para repolitização é preciso pensar em novas matrizes de participação? Como intervir e pensar projetos de intervenção criativa que mantenham a identidade de cada diferença e realce a individualidade libertadora desses sujeitos que fazem bater o coração dos movimentos sociais?
Obrigado Dona Sonia, sua angústia agora é minha angústia também ! E vamos andando...
Antonio Sardinha
0 comentários:
Postar um comentário